Era final de tarde; não me recordo da data, nem sequer do ano. Dirigi-me ao café do bairro, onde se encontravam o meu pai e um amigo seu. Sentei-me e, de pronto, veio à baila o Benfica. Naquela noite havia jogo, a contar para a Taça UEFA. O Dínamo de Bucareste era o adversário. Passados (poucos) minutos, era já insuportável conter o entusiasmo. Avisámos a minha mãe que não iríamos jantar; fui a correr a casa buscar camisola e cachecol e, em menos de duas horas, estávamos a entrar na Catedral. Durante a viagem, as nuvens fizeram-se cinzentas e, perto do apito inicial, o céu despejou toda a água que conseguiu. Saltámos bancos e grades. Refugiámo-nos na cobertura, por baixo do Terceiro Anel. Encharcado dos pés à cabeça, vi o Benfica perder nessa noite, por 1-0. O único golo surgiu inesperadamente, num remate inofensivo, forte mas à figura do nosso guarda-redes. Provavelmente traído pela chuva, Robert Enke não conseguiu segurar a bola que, lenta e escorregadia, entrou na nossa baliza. Nunca esqueci esse lance. Não que recorde Robert Enke pelos seus frangos; mas exactamente porque Robert Enke, naquele dia, de costas para mim, fez "o" seu frango com a camisola do Benfica - uma falha improvável, pois improváveis são as falhas de quem tanto talento e garra tinha. Robert Enke morreu esta tarde. E tento descrevê-lo, perpetuá-lo na minha memória: só o consigo através do frango. E do facto de ter sido o único guarda-redes a me fazer esquecer, ou melhor, a atenuar a saudadde de Preud'Homme. Com Robert Enke, morreu a esperança que alimentei, ao longo de sete anos, de o ver regressar à Luz, ao lugar que, até hoje, ainda não deixou de ser seu.11.11.09
Robert Enke (1977-2009)
Era final de tarde; não me recordo da data, nem sequer do ano. Dirigi-me ao café do bairro, onde se encontravam o meu pai e um amigo seu. Sentei-me e, de pronto, veio à baila o Benfica. Naquela noite havia jogo, a contar para a Taça UEFA. O Dínamo de Bucareste era o adversário. Passados (poucos) minutos, era já insuportável conter o entusiasmo. Avisámos a minha mãe que não iríamos jantar; fui a correr a casa buscar camisola e cachecol e, em menos de duas horas, estávamos a entrar na Catedral. Durante a viagem, as nuvens fizeram-se cinzentas e, perto do apito inicial, o céu despejou toda a água que conseguiu. Saltámos bancos e grades. Refugiámo-nos na cobertura, por baixo do Terceiro Anel. Encharcado dos pés à cabeça, vi o Benfica perder nessa noite, por 1-0. O único golo surgiu inesperadamente, num remate inofensivo, forte mas à figura do nosso guarda-redes. Provavelmente traído pela chuva, Robert Enke não conseguiu segurar a bola que, lenta e escorregadia, entrou na nossa baliza. Nunca esqueci esse lance. Não que recorde Robert Enke pelos seus frangos; mas exactamente porque Robert Enke, naquele dia, de costas para mim, fez "o" seu frango com a camisola do Benfica - uma falha improvável, pois improváveis são as falhas de quem tanto talento e garra tinha. Robert Enke morreu esta tarde. E tento descrevê-lo, perpetuá-lo na minha memória: só o consigo através do frango. E do facto de ter sido o único guarda-redes a me fazer esquecer, ou melhor, a atenuar a saudadde de Preud'Homme. Com Robert Enke, morreu a esperança que alimentei, ao longo de sete anos, de o ver regressar à Luz, ao lugar que, até hoje, ainda não deixou de ser seu.
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